sexta-feira, setembro 10, 2010

Pedorido visto do rio Douro! 2ª Parte


Diz-se, que foram tempos difíceis, e, felizmente, que ainda podem ser testemunhados por um bom número de pessoas ainda vivas e que resistem por todo esse Couto Mineiro - agora desactivado - porque as memórias não se inventam e até resistem aos maus tratos, a maioria das vezes ocasionados por vidas difíceis e pelos piores isolamentos que ninguém escolheria, se ainda pudesse fazer escolhas!...
Essas realidades de um passado não muito longínquo, servirão, quando muito, para que se retirem as ilações dos valores que as sociedades devem livremente adquirir ou rejeitar, por forma a viver-se dentro de padrões aceitáveis e dignos. Esta bagagem nunca está seguramente adquirida, pensamos nós, mas é um facto que foram dados passos nesse sentido, agora há que evitar o retrocesso!...
Pelas recordações de há cinquenta anos - quase uma vida! - tínhamos alguma curiosidade de conhecer melhor o mais recente e actual rio Douro e as zonas que lhe estão adjacentes em ambas as margens e que já não seriam bem iguais!... Nem estamos a referir-nos às zonas ribeirinhas do Porto e Gaia, que, excluindo a presença dos barcos que fazem os Cruzeiros e ainda dos barcos rabelo, que, são uma cópia um pouco aproximada, mantém-se no essencial o que sempre foram as duas margens, e, só notamos uma recente novidade entre o cais de Gaia e o quartel do monte da Virgem, sobranceiro ao rio. Está ali em construção um novo teleférico, em fase bastante adiantada e que irá ligar aqueles dois locais da cidade de Gaia, pelo que nos foi dado observar...
Demos início à subida com o mar Atlântico na maré baixa, e, talvez, por esse facto, podemos constatar a grande diversidade de aves com que íamos deparando ao longo do rio e foi uma constante até à barragem de Crestuma, e, se, não nos falhou a contagem, foram seis pontes as memorizadas em todo o correr das duas cidades, se contarmos com a ponte D. Maria, entretanto, desactivada. Não resta qualquer dúvida que ali se aplica o ditado popular:- « Não há fome que não dê em fartura!...» ( Continua )


quinta-feira, setembro 09, 2010

Pedorido visto do rio Douro!


Nos últimos anos vacilamos muito se devíamos ou não subir ou descer o rio Douro!...
Tínhamos um "confronto" interior que não será fácil de explicar, uma vez que são questões que vamos colocando a nós mesmos em certos momentos da nossa curta existência, e, que, nem sequer se prendem com o bem e o mal, mas, unicamente, com a nossa forma de imaginar toda uma região a partir do momento em que fomos sendo preparados desde muito miúdos para um rio, que já viria de muito longe e com cujas actividades nos fomos identificando, ao mesmo tempo que íamos, nós e os outros, partilhando vivências de tarefas que eram dos rios ou que a eles estariam associados.
Mas há aqui aspectos, que queríamos deixar bem claros e que gostávamos de partilhar com os nossos conterrâneos... O primeiro aspecto é que sendo nós um duriense dos anos quarenta, transportamos connosco esse Douro já um pouco antigo e que guardamos quase religiosamente, com profundo respeito por todas as criaturas que conhecemos e com quem convivemos, e, que, como nós, conheceram e amaram os rios Douro, Arda e os demais!... Claro, que estamos a referir-nos e a citar as gentes de Pedorido e Rio Mau, mas também da Póvoa, Sebolido, Melres, Lomba, Oliveira do Arda, Raiva, Folgoso e Serradelo! Todas estas gentes tinham um ponto em comum e de grande coesão, que lhes advinha do facto de se encontrarem de segunda a sábado na mesma labuta e num mesmo trabalho na única companhia a laborar no Couto Mineiro do Pejão!...
Entretanto, esses tempos já passaram e, por coincidência, ou não, os rios viram-se também transformados, os grandes areais do Douro foram escondidos com a subida das águas, os pescadores de Pedorido e Rio Mau passaram a ser uma miragem naquele grande e belo areal de Pedorido, mas ainda temos bem presente, como eram tão ágeis a manobrar os pequenos barcos da pesca ao sável, enquanto outras mãos se prontificavam a deixar cair para as águas "lamacentas" do Douro, uma rede previamente ordenada numa das zonas do barquito de sete metros e de forma a não comprometer toda a tarefa, do princípio ao fim, e, até completar numa espécie de U, já em pleno areal, aquela que seria uma armadilha para um peixe, que subia sempre apressado na mira duma desova, depois de muitas milhas vencidas, e, que, visava garantir a continuidade da espécie!... E, será que o apressado sável, depois de ter escapado à captura pelas redes montadas a partir de areais a jusante, iria vencer mais este desafio lançado por pescadores tão experientes como os que operavam no nosso areal de Pedorido?!
Diz-se, que foram tempos difíceis... ( Continua )

segunda-feira, setembro 06, 2010

Imaginar Pedorido, os seus rios e as origens!...


Fisicamente Pedorido é como é, mas, pensamos nós, que há largos milhares de anos tudo seria bem diferente e duma forma que a nossa imaginação dificilmente visualizará, mas com os poucos dados de que dispomos, vamos tentar criar algumas ideias, que poderão ter estado no princípio do que foi o estabelecimento da vida humana nestas encostas adjacentes ao Douro, ao Arda e a toda esta vasta região...
É muito provável, que este fosse um corredor de passagem para os diversos povos nómadas que seguiriam os cursos de água como meio de orientação e até da sua própria sobrevivência e a começar pelos mais importantes, como era o rio Douro, mas, é de crer, que outros afluentes também "atraíssem" os mais diversos tipos de tribos, que, naturalmente, viveriam isoladas e se entenderiam por gestos e outro tipo de expressões à falta de dialecto... As margens do Coa, mais rochosas, deixaram testemunhos inequívocos da passagem destes povos mais primitivos e as suas pinturas expressam precisamente o estádio do seu intelecto há cerca de vinte mil anos! Não dominavam qualquer tipo de alfabeto e é de admitir que também deambulassem por estas paragens onde fica hoje Pedorido, que serviria como ponto de passagem. É provável que se atrevessem a mudar de margem, mas só quando o caudal do rio Douro permitisse e é quase certo que tenham usado o tronco das árvores como primeiro meio de transporte fluvial e aproveitando a correnteza do rio!
Seguramente que estávamos perante uma vegetação muito diferente da que chegou até nós, muito propícia ao desenvolvimento de uma abundante diversidade de caça grossa, a julgar pelas pinturas do Coa...
A fixação bastante mais tarde a uma determinada zona, trouxe como consequência lógica a mudança de hábitos e é bem provável, que, já nesta altura, tivesse tido início uma espécie de dialecto, quando o apego à terra gerou o aparecimento da agricultura, enquanto mantinham os hábitos ancestrais da caça e da pesca e se embrenhavam pela primeira vez na pastorície onde iriam buscar o leite, a carne e a lã para um vestuário que muito ajudaria ao seu agasalho! Esta fixação aos locais iria gerar o surgimento de novos fenómenos a começar pela construção de tipos de habitação débeis e muito precários, assim como o surgimento de guerras entre tribos ou etnias, uns porque queriam manter o que consideravam sua pertença, enquanto que os invasores se achavam com direito à conquista e a não permitir que outras formas de vida se instalassem!...
Todos estes processos teriam sido lentos, demasiado lentos, para a nossa compreensão actual, e, nenhum de nós, estará agora a pensar, que será o descendente de homens e mulheres, que viveram e deambularam durante milhares de anos por estas paragens, com uma simples tanga, que caçavam de arco e flecha e que estariam bem longe de imaginar e ver o que os nossos olhos viram naquela ribeira do Arda há apenas sessenta anos, na década de cinquenta, uma agricultura que mais parecia um jardim, só trabalho do homem e que contava com a ajuda do arado e das juntas de bois, assim, como também estariam bem longe de imaginar, que volvidos cerca de vinte mil anos, muitos dos seus descendentes iriam tornar-se mineiros, um modo de vida a que chamaram profissão e que não estaria no horizonte daquelas gentes tão primitivas, que, ao longo dos tempos, se foram misturando com outros povos, que, por cá, haveriam de aparecer, vindos de sítios tão distantes como as estepes asiáticas!...
Digam lá, pedoridenses, não foi um bom exercício repensar as nossas origens?!...
E, já teriam sequer sonhado, ter feito parte, embora de forma indirecta, de vidas tão primitivas e desconfortáveis?!...

-UM POVO SEM MEMÓRIA É UM POVO SEM RUMO!


quarta-feira, setembro 01, 2010

Abecedário de um verão

Aniversário - Vamos fazer 5 anos. É obra...

Baril (Rádio) - voltou ao activo, o que é sempre de saudar! Ou não... 

Campismo - não seria boa ideia tentar organizar o campismo na praia, agora que cada vez mais campistas vêm para Pedorido passar o verão? Qualquer dia não há lugar na praia para os banhistas...

Desemprego - Praga ainda pior que os fogos...

Esgoto - Souto. Cheiro. Podre.

Fogo - Muitos, muito fogos. Demais até! 

Gamanço - parece que em Pedorido no verão, para além da abertura das épocas de fogos e balnear tambem abre a época do gamanço... 

H - sei lá o que é que começa por H e tem a ver com Pedorido!!

Igreja - quando desaparecerem os velhos todos quem é que vai à missa??

Junta de Freguesia - não sei se têm feito muito ou pouco trabalho, mas não se fala deles, o que é positivo!

Lixo - As margens do Rio Arda são uma vergonha!!

Multas - já não chegam duas mãos cheias para contar as pessoas de Pedorido e arredores que têm sido multadas pelos zelosos funcionários da GNR de Castelo de Paiva. Gostam mais de nós do que mel...

Nunca mais vão tirar aquela merda de cima da Ponte Velha, pois não?

Obrigado ao Dr. João Pedro por ter conseguido a garantia que aquilo era temporário... ui, se não fosse!

Paintball (100Limite) - Está na moda agora! Dois jovens de Pedorido decidiram investir e criar um campo de jogo de Paintball. Fico muito feliz de ainda ver empreendorismo em Pedorido. Que sirvam de exemplo. Parabéns e boa sorte!

Q - Ler letra U

Rock (Crokas) - Vai realizar-se a segunda edição no dia 12 de Setembro. Grande iniciativa dos nossos vizinhos de Oliveira. Que fique por muitos e bons anos.

Sto. António - Mais uma grande festa e um bar que tem fechado todas as noites de Pedorido.

Tesos (Praia) - Mais uma vez concorridíssima! E este ano até tivemos direito a Beach Party!

Uma hora e um quarto - é o tempo que estou para encontrar uma palavra que encaixe aqui e no Q. Bolas, desisto...

Vinte e Nove (Café 29) - pela primeira vez na vida vi este histórico café fechar para férias!! Não percebo se isto é bom ou mau sinal...

Xungaria - definição aplicável à maior parte das pessoas que acampam na Praia do Choupal.

Zona J - Parece que a Costa/Eirado se tornou a Zona J de Pedorido. Só falta pintarem as casas de cores berrantes para avisar a população de zona perigosa...

quinta-feira, agosto 26, 2010

O mês de Agosto!

E cá estamos, mês de Agosto, Pedorido invadido por seres estranhos de outros planetas, o transito torna-se caótico ainda no outro dia apanhei dois carros a minha frente quando estava a chegar ao monte do Areinho! Isto é historia meus amigos, segundo alguns registo desde 1945 que não passam mais de dois carros seguidos por aquelas ruas e quem diz aquelas diz muitas outras!
Ao fim de semana temos a nossa praia dos tesos concorridíssima, com imensos campistas, que ficam completamente enfurecidos quando alguém se chega perto das suas tendas para dar uns toques na bola… na praia temos algumas tabuletas que nos dizem por exemplo: “proibido acampar” ou “proibido fazer fogueiras” para esses campistas diz apenas: “ proibido jogar a bola”, são dificuldades de leitura completamente compreensíveis meus amigos.
O que mais me agrada nestas enchentes na nossa Tesos Beach é que, de vez em quando, lá se apanha uma ou duas mulheres a praticar uma atividade que me agrada imenso… aí como é que se chama? topless é isso…
Não é apenas por ver um par de seios extra que me agrada receber novos visitantes, também reconheço que é bom para a nossa economia, as nossas ações na bolsa de valores disparam em flecha e claro é bom saber que por aí há mais quem goste de Pedorido!
Uma das coisas que reparo é na diferença de costumes entre quem nos vem visitar durante este mês, só para dar um exemplo no outro dia encontrava-me parado nos semáforos que ficam perto do Souto, quando vejo do outro lado uma família de emigrantes, o puto ao aperceber-se do cheiro desagradável que abunda por aquela zona tapa o nariz e comentam os restantes: - olha, cheira a natureza! - Eu fiquei embasbacado (embasbacado uma palavra com a sua piada)! Tipo para mim, acredito que para todos os pedoridenses, cheira, simplesmente a, perdoem-me a liguagem, mas não á outra maneira de dizer, eh pá cheira a merda, pronto! Para quem nos visita cheira a natureza! Ainda há quem diga para desfrutarmos da natureza, assim dispenso bem!

Juízo :)

quarta-feira, agosto 25, 2010

Desabafos de um Barco do Douro!

...« É este "chega p'ra lá" que até a nós custa a "engolir", quando se percebe que as dificuldades com as vistorias e certidões aos pequenos barcos como nós, são a ante-câmara de uma morte anunciada, uma vez que se trata de exigências que visam cansar os donos e familiares dos poucos barcos que vão restando Douro acima... Tudo isto para quê?! Para que se invista nos barcos de fibra e a motor, de preferência, como se de repente este país passasse a ser o país das maravilhas, que não é, nunca foi, e, não será nos tempos mais próximos!Vivemos com o "credo na boca", porque nem sabemos o que pensa o meu actual dono, se é que tem alguma posição, porque este é outro mal por aqui enraizado, sendo muito frequente deparar com pessoas que se auto-marginalizam dos seus interesses, mantendo uma posição dúbia em que "nem são peixe nem carne", facilitando com a sua posição os que se organizaram e que conhecem bem demais os pontos fracos das boas gentes ribeirinhas...Gostamos do que somos e nunca aspiramos vir a ser um outro barco, mais soberbo, a começar por umas linhas mais arredondadas, cheias de estilo e com cores próprias de paisagens exóticas, equipado com motor de alta cilindrada e com altas garantias de que não polui as águas, nem as margens, com baixo consumo, mesmo nas altas rotações, mas depois lá se descobre que nem é tanto assim, mas o negócio já está consumado e... "p'ra frente é que é Lisboa"!Querem um outro exemplo, aqui vai:- O meu actual dono, que foi mineiro nas minas de Germunde e com algum prestígio na classe, nunca se pronunciou junto de mim e desconheço em absoluto o que pensará, mas nós não somos assim tão estúpido e lá vamos tirando algumas conclusões! Como é bastante conhecido em toda a aldeia, relaciona-se com muita gente e até com pessoas que regularmente vêm rio acima nas suas lanchas com barco a motor e pelo que vamos "escutando" o centro das conversas continua a ser as minas, os poços, as galerias, os mineiros e as suas histórias, onde é inevitável falar-se de todas as peripécias que acompanharam o fecho das minas de carvão em noventa e quatro, mas, curiosamente, nunca se debruça acerca das questões actuais e futuras do rio... Quer-me parecer que esta criatura, que me parece bom homem, não será bem um pescador, daqueles que em tempos idos viviam do rio e para o rio e já o "apanhei" a comentar com pessoas amigas, que gostava de vir ao rio distrair-se, apanhar o ar puro que vem canalizado do Atlântico, mas que fazia "disto" um "hoby", porque tinha a sua reforma de mineiro e que não estava para se chatear muito... Confesso que ficamos tristes, amargurados e até a nossa madeira parece que mudou de cor e pela primeira vez sentimos calafrios muito próximos daqueles que os humanos por vezes sentem, porque a nossa imaginação diz-nos, que situações destas serão "o pão nosso de cada dia" e se isso for certo, o nosso fim poderá estar para breve!... Quem nos acode?!...»SE GOSTAS DA TUA REGIÃO, NÃO HESITES, DIVULGA-A!

segunda-feira, agosto 23, 2010

Desabafos de um Barco do Douro! ( Parte 3 )

... O facto de estarmos agora aqui atracado ou "amarrado", se quiserem, na Lingueta, não significa que tenhamos sido abatidos ou coisa parecida, para já!!!!!...... Nada disso, até porque temos um "dono", que é um termo pouco do nosso agrado, uma vez que apreciamos de verdade o termo de barqueiro e não é só pela terminologia ser a mais correcta, nada disso, mas por vir do antigo, das nossas origens, com que nos identificamos e de que temos uma enorme saudade, que nem será difícil de aceitar... Mas se essa aceitação for assim tão custosa, nós até perceberemos sem que a aceitemos, obviamente!... Julgamos conhecer as principais razões do que foi acontecendo ao longo dos tempos para estas bandas do Douro e não nos conformamos com a proporção a que as coisas chegaram e é nestes momentos, que são raros, quase únicos, que gostaríamos de ter uma espécie de boca com língua para poder "falar"mesmo de maneira diferente dos humanos, com quem não queríamos "pedir meças", nada disso, mas somente poder "trazer à baila", factos verídicos e passados com outros humanos, que connosco lutaram lado a lado e que deram quase uma vida inteira pelo seu rio, e, não estou só a lembrar-me de barqueiros e pescadores anónimos, que ora eram uma coisa, para logo de seguida serem a outra, sem esquecer os pequenos lavradores ou simples caseiros, que sobreviviam com o muito pouco que retiravam das terras que nem eram deles, sujeitando-se anos a fio sem um queixume e recorrendo sazonalmente aos rios, para deles receber a parte que as terras não conseguiam dar!
Lá porque somos um barco, não perdemos a sensibilidade e achamos que não favorece a sociedade actual e futuras, este corte quase radical com o passado, que será a consequência de falhas graves e culturais, que já virão de trás, em que as responsabilidades serão de todos, mas que deverão ser repartidas de forma desigual, cabendo aos mais responsáveis as maiores culpas, porque é muito feio tentar arranjar desculpas, como é timbre neste território que tem o rio Douro e o Arda com as suas pontes, que nós adoramos!... (CONTINUA)

UM POVO SEM MEMÓRIA É UM POVO SEM RUMO!

sábado, agosto 21, 2010

Memórias de um barco do Douro! ( Parte 2 )

... Só tínhamos a noção de sermos um barco muito pequeno por alturas das grandes cheias do rio Douro, e, durante esses curtos períodos, até que apreciávamos que os nossos barqueiros se voltassem para os afluentes, e, sentíamos uma nova emoção penetrar nestas ocasiões pelo rio Mau ou mesmo pelo Arda fora e encostar nas suas margens, talvez por percebermos, que eram tempos muito raros e de excepção, e, ainda recordo, que tínhamos um comportamento que fazia lembrar as crianças com o seu temperamento alegre, mas irrequieto e imprevisível, capaz de criar alguns problemas ao barqueiro em qualquer ponto do rio, caso perdesse a concentração, por momentos que fosse...
Lembro-me como se fosse hoje, que não gostávamos de estar parados e detestávamos as horas de descanso dos pescadores, que, por vezes, também eram mineiros ou lavradores, e, embora não decidíssemos o que quer que fosse, tínhamos também as nossas manias e até as nossas preferências no movimento à ré, coisa inexplicável, sem justificação, assim como adorávamos as travagens, um processo bastante usado com ambas as pás dos remos e até as consequentes mudanças de direcção!... Delirávamos com tais manobras, sem saber muito bem porquê, e, já não sentíamos o mesmo quando os nossos barqueiros - e foram muitos! - se ocupavam do movimento de proa, que era o mais normal, ou melhor, o mais utilizado. Sim, remava-se, preferencialmente, de frente e para a frente, o que talvez vá dar razão àquele ditado popular que diz, "em frente é que é Lisboa!", mas não sabemos se tem a ver uma coisa com a outra...
Ah, mas voltando ainda às grandes cheias, para relembrar a mim mesmo o que foram todos aqueles momentos, bem mais raros, felizmente, em que as águas sujas, cor de barro, escondiam a vossa e "nossa" ponte velha! Era como se não existisse e a "nossa emoção" era grande ao passarmos em todos os sentidos, por cima duma ponte de ferro, que desaparecera aos olhos de toda a gente e nem era tão pequena quanto isso!... Da noite para o dia, tudo se modificara com a subida rápida das águas, e, passara a ser um ambiente muito estranho, por ser coisa rara e que até aos barcos meteria uma certa confusão, enquanto dava para ver a impotência e o temor dos homens e das mulheres, ao mesmo tempo que as crianças em idade escolar, quase ficavam sem fala ao ver pela primeira vez um cenário que desconheciam e que poderia deixar as suas marcas!... É a vida! ( Continua )

Memórias de um barco do Douro!

«Somos um pequeno barco saveiro, já com alguma idade, mas quem olha para nós não ficará com uma ideia do nosso historial, que surge do rio mais antigo e que trazemos na memória!
O facto de nos encontrarmos aqui parados na Lingueta tem a ver com os tempos actuais, onde até a pesca é bem diferente de outros tempos não muito longínquos, e, que, estiveram na origem do nosso aparecimento. Era a época dos areais dispersos ao longo de ambas as margens do rio Douro, ora na esquerda, ora na direita e que os nossos inventores tiveram o cuidado de perceber, para a seguir poder transformar num barco de características proporcionais às tarefas, que as gentes ribeirinhas tinham para lhes destinar! Foi assim que quem teve a felicidade de acompanhar o nosso desempenho como barco, ao longo dos diferentes tipos de caudal, concluiu que estava encontrado o barco que melhor se adaptava às várias tarefas e mais ninguém pensou em inventar para os nossos afazeres um novo substituto... Acontecia, que os donos mais cuidadosos, tinham com os seus pequenos barcos cuidados primários ao reforçarem toda a calafetagem, assim que achassem necessário e até a pintura era retocada em todo o exterior de dois em dois anos, porque um barco novo representava um preço muito elevado, enquanto uma boa manutenção dava todas as garantias para muitos e bons anos de actividade, umas vezes no transporte das gentes ribeirinhas entre ambas as margens, ou ainda, nos vários tipos de pesca - muito similares - que se levavam a cabo desde o areio de Melres, passando pelo de Pedorido e tendo boa continuidade um pouco acima no grande areio d´Hortos!... ( Continua )

segunda-feira, agosto 09, 2010

Diálogos com o nosso rio Arda!... ( Parte 6 )

Resolvemos dar prioridade em voltar às margens do Arda por acharmos que as responsabilidades agora passaram a ser nossas, a partir do momento em que ouvimos com clareza a voz do Arda clamar que tinha argumentos e objectivos e que queria dá-los a conhecer em primeira mão às gentes da região! A verdade é que mal aparecemos, nos reconheceu de imediato e nem perdeu tempo nas apresentações, para passar a explicar:
«- Nós os rios sempre fomos muito práticos desde as nossas origens e as nossas águas não tolerariam quaisquer demoras a que vós chamais burocracias... Mas com toda a franqueza, pior que todas as burocracias humanas - que são um problema vosso - é a praga da poluição que suportamos dentro de nós e ao longo das nossas margens de quase quarenta quilómetros, desde o abendiçoado vale de Arouca - que o grande Aquilino imortalizou no Malhadinhas - até atingirmos a foz à vista da vossa linda aldeia de Pedorido e deste lugar de eleição que é as Concas!...
Temos que dizê-lo muito frontalmente, que vários factores contribuem para que este flagelo da poluição, tenha vindo para ficar e o principal factor prende-se com a falta de raiz duma educação ambiental desde o berço, que, é como quem diz, a começar no seio das famílias, com a devida continuidade nos programas escolares, mas que deverá ter continuidade nas empresas de todas as dimensões e claro está nas autarquias, que têm um papel importantíssimo e vasto, mas que por isso mesmo é determinante, não só na continuação da formação dos munícipes, mas porque não, no combate firme contra os prevaricadores, que sempre irão existir ao longo da história dos povos e sem ter medo de vir a perder meia dúzia de votos!...
Estes dados de que vos "falo" nem são novidades para quem está atento, mas as resistências às regras e ao cumprimento são enormes, mas estamos de acordo com aquele humano anónimo, que há algum tempo atrás, aqui, junto das minhas margens e com todo este lindo cenário a servir de testemunha, dizia "alto e bom som", que Democracia não é bandalheira e estava a referir-se à poluição em geral e nos rios em particular, ao mesmo tempo que citava exemplos muito tristes de gente muito rasteira e sem escrúpulos!...»
Bem, quem fala assim merece respeito e a nossa reflexão e decidíamo-nos por um compasso de espera, ao verificar que tínhamos já na nossa posse um conjunto de boas ideias e vindas do nosso Arda, que muito justamente sobe na nossa cotação e na cotação das muitas pessoas que vêm fazendo das suas vidas um combate sério e digno, para que a vida na Terra não continue a ser posta em causa por gente irresponsável e criminosa, há que dizê-lo!
Obrigado velho amigo e gostaríamos que continuasses a ser um dos nossos rios mais queridos!...
-A melhor forma de mostrar amor pela nossa região é dá-la a conhecer!